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Ronco: haja paciência! - Gazeta de Piracicaba (novo)

reportagem publicada na Gazeta de Piracicaba - 27 de setembro de 2008

Impacto negativo Pesquisa revela que dormir ao lado de quem ronca, pode prejudicar a relação


DANIELLA OLIVEIRA
Especial para a Gazeta

Acordar irritado por uma noite maldormida é mais que desagradável, principalmente quando o motivo é o ronco do parceiro. A dona de casa Jandira, que prefere não dizer o sobrenome, sobrevive ao problema de ronco há 15 anos. Ela conta que o barulho feito pelo marido é tão alto que a família o apelidou de "Trator". "A gente acorda toda noite, várias vezes. Minha filha nem convida as amigas para dormir em casa, pois morre de vergonha".

Jandira disse que o marido não acreditava que fosse assim, até o dia em que ela e a filha resolveram gravar o som durante a noite. "Ele ficou um pouco chateado depois que ouviu a gravação. Mas, acreditamos que é o primeiro passo para decidir procurar um médico".

Para Ana Elisa Cunha, o ronco foi motivo do rompimento de um relacionamento de quase dois anos. Ela não conhecia "esse lado" do namorado até a primeira viagem juntos. "Fiquei horrorizada. Durante os cinco dias numa pousada, confesso que fiquei cinco noites sem dormir", contou Ana. A publicitária enfatizou que não faltou diálogo sobre o assunto, porém, o moço levava tudo na brincadeira. "Depois do noivado eu comecei a ficar desesperada, pois jamais iria casar com quem não conseguia dormir". A relação terminou depois de três meses do noivado. "No começo achei que tinha exagerado, mas hoje tenho certeza que foi melhor. Mesmo assim, espero que ele tenha procurado ajuda médica".

Segundo um estudo publicado pela Associação Britânica do Ronco e da Apnéia (BSSAA, na sigla em inglês), as pessoas que dormem mal por causa do barulho causado pelo companheiro perdem dois anos de sono a cada 24 de relação. Mas, não é apenas quem está deitado ao lado que sofre. "A pessoa que ronca também possui um sono leve e, conseqüentemente, seqüelas das noites ruins", alerta o neurologista Shigueo Yonekura, do Instituto de Medicina e Sono de Piracicaba.

Ainda de acordo com a pesquisa, dos dois mil adultos entrevistados, 85% afirmaram que a relação teria uma sensível melhora se o parceiro se tratasse do problema. "O ronco interfere na vida conjugal porque muita gente espera o quadro ficar complicado para resolver se tratar", contou o especialista. A pesquisa também confirmou que 55% dos casos tiveram interferência em suas relações sexuais.

O ronco pode ter um impacto muito negativo nas pessoas que precisam viver com isso", diz Marianne Davey, uma das fundadoras da BSSAA. "Encorajamos qualquer um que seja afetado pelo ronco a se manifestar para que possa ser ajudado".

SERVIÇO

Saiba mais
Informações sobre o ronco pelo site: www.institutodosono.com.br

CAUSAS

Conseqüências da apnéia e tratamento

Conforme informações do Instituto de Medicina e Sono, o fenômeno central para o surgimento do ronco consiste na garganta flácida. O tono dos músculos da garganta se reduz, levando progressivamente ao contato das paredes, o que gera vibração e o ruído característico. Além de provocar relaxamento muscular, o sono altera a coordenação entre as contrações do diafragma e dos músculos da garganta. Normalmente, a inspiração inicia pelos músculos da asa do nariz e propaga-se pela faringe, laringe e parede torácica, até alcançar o diafragma. "Suspeita-se que os roncadores sofram uma perda dessa coordenação, herdada geneticamente", explica o neurologista. Além disso, fatores anatômicos como obesidade, queixo pequeno, mordida estreita, céu da boca (palato) em formato de ogiva, amídalas e adenóides aumentadas, podem estreitar a passagem do ar e facilitar o contato entre as paredes da garganta, propiciando o ronco. "Aproximadamente 45% dos adultos normais roncam, pelo menos ocasionalmente, e 25% são roncadores habituais.

APNÉIA. Conforme Yonekura, especialista em sono, ronco é sinal de doença. "Pode ser causa ou conseqüência da doença que remete à dificuldade de respirar durante o sono, a apnéia". Após cada parada respiratória, o cérebro faz com que o indivíduo acorde por um período de tempo para que possa respirar, portanto o sono é fragmentado e de má qualidade. "Roncar não deve ser motivo de gozação. Por isso é importante ressaltar que a apnéia pode causar até a morte", alerta.

O sono ruim provoca alterações no organismo de quem ronca muito. Acordar cansado, sonolência, alteração de memória, dificuldades de concentração, irritabilidade, depressão, agressividade e alteração da libido são conseqüências imediatas. Com o tempo, o problema pode causar hipertensão arterial e até doenças coronárias.

Obesidade, envelhecimento (com conseqüente perda de massa e tônus muscular), horários irregulares de sono, alterações anatômicas da face e obstrução nasal são algumas delas. Adenóides, cafeína, fumo e até antecedentes familiares também contribuem para o crescimento do problema.

"Falta de sono pode ter uma conseqüência negativa na saúde mental, física e emocional".

O risco de pressão alta em quem ronca chega a dobrar após quatro anos com o problema. Como se não bastasse o grave risco à saúde, o ronco costuma provocar mau hálito. Por ser uma forma de respiração bucal, aumenta o ressecamento da mucosa oral, acelerando a descamação das células. "O ronco e o mau hálito trazem um profundo prejuízo para a vida conjugal, familiar, social e profissional", disse o especialista.

TRATAMENTOS. Nem todos os casos de apnéia do sono são solucionados com medidas simples como dormir de lado e praticar exercícios físicos. Para fugir do desconforto e dos riscos à saúde provocados pelo distúrbio, alguns pacientes precisam recorrer aos tratamentos. Entre as alternativas estão o cirúrgico, o uso do posicionador mandibular e o aparelho de pressão positiva continua nas vias aéreas (CPAP) - semelhante a uma máscara de inalação que auxilia a respiração durante o sono.

A máscara de silicone possui uma ventoinha blindada e é acomodada no nariz gerando uma pressão positiva transmitida à faringe que se abre para a passagem do ar. "O tratamento de apnéia do sono com aparelhos intra-orais tem registrado bons resultados e grande aceitação", informou o neurologista.


Inserida dia 29/09/2008


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