Distúrbio do sono afeta 30% da população
reportagem publicada no Jornal “O Estado de São Paulo”
Por Simone Iwasso
Todas as noites, às 20 h em ponto, há uma fila de carros no estacionamento do prédio onde funciona o Instituto do Sono, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. O volume de pessoas se repete nos elevadores até chegar aos quatro últimos andares, onde estão distribuídos 84 quartos disponíveis para pacientes que farão a polissonografia, o mais completo exame para detectar distúrbios de sono.
Cada um leva sua mochila ou bolsa, além de um cabide com as roupas do dia seguinte. Essas pessoas passarão a noite lá, sendo monitoradas por pelo menos seis horas - e terão de dormir com eletrodos e sensores espalhados pelo corpo. Ao despertar, receberão um café da manhã e o diagnóstico do que está atrapalhando seu descanso noturno.
Os pacientes são parte de uma multidão de insones que se esforçam para dormir bem na cidade de São Paulo. São pelo menos 3 em cada 10 habitantes que cronicamente não conseguem uma boa noite de sono, segundo dados de uma pesquisa inédita feita pelo próprio instituto, ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo o trabalho, que teve como diferencial justamente usar a polissonografia em uma amostragem populacional de 1.200 pessoas, 25% dos paulistanos sofrem de insônia crônica e 30% deles têm apnéia do sono, 7% sendo do tipo acentuado - índice no primeiro caso dentro da média mundial e no segundo, acima.
O problema, como mostra a variedade de pessoas esperando para fazer o exame, não tem perfil definido: são homens, mulheres, crianças e jovens que não alcançam as oito horas médias de descanso pregadas por especialistas. Com isso, além do cansaço no dia seguinte, terão mais chance de desenvolver uma série de problemas de saúde, como doenças cardiovasculares, depressão, diabete, falta de memória, colesterol elevado e aumento de peso (todos efeitos comprovados em diversas pesquisas científicas feitas nos últimos cinco anos).
ESPERA
Não são poucas as pessoas que procuram o instituto. A fila de espera para fazer o exame pelo plano de saúde é de mais de um mês. Pelo Sistema Único de Saúde (SUS) chega a dois anos - o instituto é o único a fazer esse tipo de exame pelo SUS na cidade de São Paulo. "É um problema de saúde pública, que tem custos sociais e econômicos. Pesquisas internacionais mostraram que dormir cinco horas ou menos diminui a produtividade e aumenta chances de problemas cardíacos", afirma uma das responsáveis pelo estudo, Dalva Poyares, neurologista especializada em biologia do sono e uma das coordenadoras do Instituto do Sono da Unifesp. "A mensagem é que o sono tem tudo a ver com o coração e, como conseqüência, com viver mais", resume ela.
No caso dos que sofrem de apnéia, uma obstrução da respiração provocada durante o sono, quando a pessoa fica sem respirar por alguns segundos, a relação é ainda mais direta e foi comprovada num trabalho feito pelo instituto. "Descobrimos que a apnéia provoca uma alteração no coração, deixando a pessoa com função cardíaca alterada", afirma. A explicação é complexa: a cada vez que ocorre uma apnéia, a circulação da pessoa fica alterada. Quando ela volta a respirar, o sangue vai de uma só vez para o coração, provocando um movimento de abertura que, com o tempo, afrouxa as válvulas cardíacas.
E há, segundo especialistas, um outro tipo de insone, que está se tornando uma epidemia decorrente da rotina atual das pessoas: aqueles que, mesmo com sono e vontade de dormir, optam por sacrificar as horas na cama para dar conta do trabalho por fazer, da ginástica que não teve tempo durante o dia ou da balada imperdível. Segundo pesquisas recentes, a privação em quem tem realmente sono afeta ainda mais o organismo.
"Não estamos geneticamente adaptados para dormir tão pouco", explica Dalva. Mesmo assim, o ser humano tem abdicado constantemente das horas e da qualidade do sono. Estudos mostram que a cada século a humanidade dorme uma hora a menos. Nos últimos anos, está se chegando a quase uma hora a menos por década. Os alertas dos cientistas e médicos, porém, podem estar começando a fazer efeito. "Assim como a medicina do sono se fortaleceu nos últimos anos, a população começou recentemente a valorizar e entender a importância de dormir bem", afirma a pediatra especialista em sono, Rosana Cardoso Alves, do Laboratório Fleury. "Antes era comum as pessoas passarem a vida dormindo mal, e sendo prejudicadas por isso, mas achando que era normal, era da personalidade delas."
No mês passado, o administrador de empresas Alberto Costa Júnior, de 36 anos, recebeu o diagnóstico de sua polissonografia, feita uma semana antes. Ele tinha um sono mais fragmentado que o normal e um número maior do que o tolerado de suspensões da respiração. Também fazia um esforço respiratório considerável. "A médica me explicou que eu deveria emagrecer, porque mais magro eu respiraria melhor, e fazer uma máscara para respirar à noite", conta ele, que sentia cansaço durante o dia e já chegou a dormir no volante ou no meio de reuniões. "Sem contar que minha mulher reclamava muito. Foi ela quem me convenceu a procurar o médico."
Inserida dia 20/10/2008
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