Instituto de Medicina e Sono : Dr. J. Shigueo Yonekura
 

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Apesar de parecer inofensivo, trocar o dia pela noite pode ser prejudicial à saúde

Jornal de Itatiba

Tudo conspira para que noite e sono ocorram simultaneamente: os astros, os hábitos e a biologia humana. A noite foi feita para dormir – diz a praxe – mas, como sempre na vida, essa não é uma verdade válida para todo mundo.
Alguns poucos selecionados pela genética subvertem a ordem dos três relógios que regulam o ser humano e se descobrem mais acesos para o trabalho exatamente quando a maioria já está fora do combate. São os chamados “vespertinos”, representados por cerca de 10% da população; os matutinos, que dormem e acordam muito cedo, somam outros 10%.
Segundo o médico neurologista especialista em sono, dr. Shigueo Yonekura, essa inversão de horários pode ser prejudicial à saúde. “O ser humano foi programado para dormir à noite, quando ocorre a ausência de luz, a secreção da melatonina (hormônio responsável por regular o sono) e a temperatura do corpo cai”, explica. De acordo com ele, a junção desses fatores contribui para o descanso.
Geralmente, as pessoas que dormem durante o dia dormem menos e o sono não tem a mesma qualidade em relação à noite, pois de dia o sono costuma ser mais fragmentado.
RELÓGIO BIOLÓGICO
Para dr. Shigueo, o ideal é realmente dormir à noite, quando não há luminosidade e o barulho é menor. “Porém, se existe a necessidade de trocar o sono da noite pelo de dia, o aconselhável é dormir sempre nos mesmos horários, para não afetar ainda mais o relógio biológico. Deixar o quarto escuro e manter o ambiente arejado ajudam a dormir melhor”, aconselha o especialista.
Aparentemente, a troca de horários pode ser inofensiva, no entanto alguns problemas podem ser acarretados. Dentre eles, está o déficit de atenção, de memória e raciocínio, além de predisposição a problemas cardiovasculares e metabólicos. Quem não dorme à noite também pode desenvolver predisposição à obesidade, devido à dificuldade de ação de leptina (hormônio da saciedade).
Ainda segundo dr. Shigueo, existem alguns estudos que indicam que os riscos de acidentes aumentam com o trabalho noturno. “Além do mais, as pessoas que ficam acordadas à noite têm uma tendência a desenvolver transtorno de ansiedade e depressão”, atenta.
NOITES DE AGITO
Muitas pessoas ficam deslumbradas com o agito e o glamour de festas, danceterias e demais eventos comemorativos, mas o que muitos não sabem, é que quem escolhe trabalhar nessa área tem que dar duro para que tudo ocorra na mais perfeita sincronia e harmonia, e “sacrificar” o sono é imprescindível.
O técnico de áudio Adilson Mantovani, mais conhecido entre os itatibenses como DJ Kapeta, entende muito bem disso. Trabalhando na área há 25 anos, Kapeta admite que essa rotina “noturna” é bem cansativa. “Durante a semana trabalho em meu estúdio e, aos finais de semana, trabalho com eventos. Apesar de gostar do que faço, trabalhar à noite, para mim, é muito mais cansativo”, conta.
As horas de sono variam entre cinco e oito horas por dia, de acordo com os trabalhos que aparecem, porém, quando as noites são puxadas, percebe que falta disposição para realizar demais atividades no dia seguinte.
Os pais, a namorada e os amigos já acostumaram com essa rotina “contrária”. “Também não existe técnica para se manter acordado; no meu caso, fico acordado facilmente porque já acostumei. De vez em quando, até mesmo quando não tenho nenhum serviço, acabo ficando acordado”, disse o DJ.
SILÊNCIO DA MADRUGADA
A mãe, dona-de-casa e escritora Rosana Boregio Altarejo Hasegawa descobriu uma predisposição fora do comum para escrever à noite quando descobriu que no silêncio da madrugada ela conseguia ouvir seus pensamentos, como se pudesse ouvir as vozes dos próprios personagens de suas histórias. “Meu dia-a-dia é sempre muito corrido. Gosto do silêncio para escrever, mas isso nem sempre é possível durante o dia, então, às vezes, passo horas escrevendo à noite”, conta Rosana.
Para ela, a diferença de trabalhar à noite é justamente saber que as outras pessoas estão dormindo e a possibilidade de se concentrar totalmente em suas histórias e até criar novos personagens. “À noite, eu sei que ninguém vai me atrapalhar, o telefone não vai tocar, ninguém vai assistir a TV, não vou precisar parar de escrever para levar ou buscar as crianças na escola e o caminhão de gás não passa na rua durante à noite”, aponta. As estrelas e o tic-tac do relógio de parede da cozinha, são os únicos companheiros de Rosana em sua jornada noturna, como ela mesma diz.
DESGASTE FÍSICO
Rosana admite que, quando passa muito tempo acordada durante a noite, sente-se muito cansada no dia seguinte, sem falar das olheiras, da dor de cabeça e do desgaste físico como um todo. Para recuperar tudo isso, só tendo uma bela noite de sono. “Não dá para ficar acordada toda noite. Embora eu sinta falta das estrelas, sei que elas estão escondidas atrás dos raios do sol”, emociona-se.
As pessoas acham que a escritora deveria arrumar um tempo durante o dia para escrever, mas o que elas não entendem, é que justamente o silêncio da noite e o brilho das estrelas é que lhes trazem grandes personagens e histórias fantásticas, que, segundo ela, valem a pena algumas horas de sono a menos.
Porém, Rosana é cautelosa: procura tomar bastante café para auxiliar e não fica acordada durante a noite toda. “Só fico muito tempo acordada quando estou no meio de uma história e quero terminá-la logo, ou quando estou procurando um novo personagem. Quando a história está muito legal, dá vontade de continuar escrevendo até a mão se cansar e os dedos se entortarem”, brinca. “Quando me dou conta de que não sou uma coruja, que dorme durante o dia, eu paro. Afinal, eu não tenho tempo para isso”.



Inserida dia 03/12/2009

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