Instituto de Medicina e Sono : Dr. J. Shigueo Yonekura
 

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O perigo do sono ao volante

O Carnaval está chegando e muitos preparam as malas para pegar a estrada e viajar. Mas, todo cuidado é pouco quando assunto é dirigir, ainda mais nesta época, quando as rodovias ficam movimentadas.
A preocupação não se limita ao aumento de veículos nas estradas, o motorista
deve estar bem disposto e decidir qual o melhor horário para ficar horas ao volante. “O condutor precisa estar descansado e optar por um horário que ele se sinta bem para dirigir durante vários quilômetros”, alerta o especialista em distúrbios do sono pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), Shigueo Yonekura.
De acordo com Yonekura, o sono é um dos principais vilões das estradas, sendo responsável por um em cada quatro acidentes. Muitas vezes, os melhores horários para fugir dos congestionamentos são os mais arriscados. O risco de morte é quatro vezes maior nos acidentes noturnos. Durante a madrugada, a gravidade dos acidentes costuma ser maior. Neste período o fluxo melhora, os veículos aumentam a velocidade e os motoristas ficam mais sujeitos ao cansaço e sonolência. “A temperatura do corpo cai de madrugada e os condutores ficam mais propícios à perda de coordenação motora e reflexo”, explica Yonekura, que também é médico do Instituto de Medicina e Sono de Campinas e Piracicaba. Ele também comenta que o condutor não pode se arriscar e sair à noite depois de um dia todo de trabalho e enfrentar horas de viagem ao volante. Outra recomendação é evitar comer em excesso antes de dirigir. “A ingestão de alimento em excesso pode aumentar a sonolência”, frisa.

Sonolência diurna
Já quem sofre de sonolência excessiva diurna e sente uma vontade incontrolável de dormir durante atividades rotineiras e em momentos inoportunos é preciso ficar mais atento ainda. Adormecer em uma reunião de trabalho ou no cinema pode ser desagradável. Mas a situação pode ser ainda mais grave quando o sono aparece ao volante. A verdade é que a sonolência excessiva diurna deve ser levada muito a sério e as causas precisam ser investigadas para evitar conseqüências significativas.
Algumas pessoas têm um período temporário, muitas vezes no início da manhã, em que se sentem sonolentas. Só que esse desejo de tirar uma soneca rápida é completamente diferente da sonolência diurna excessiva. A prevalência da sonolência diurna, que afeta aproximadamente 30% da população adulta, traz problemas para a saúde, prejudica o desempenho profissional e acadêmico e compromete as funções psicossociais.
Na ausência de privação de sono, a sonolência diurna pode ser causada por um transtorno do sono identificável e tratável. Doenças como síndrome da apnéia obstrutiva do sono, narcolepsia e Síndrome das Pernas Inquietas podem provocar a sonolência. Alguns transtornos de origem psíquica, como a depressão, também estão ligados ao problema.
A causa mais comum da sonolência excessiva diurna na sociedade é a privação crônica do sono. Estimativas indicam que dormimos 25% menos que nossos antepassados há um século. Dessa forma, nossa privação de sono é intencional, muitas vezes impulsionada por fatores sociais ou econômicos. As opções de compra no período noturno, a internet, informações sobre o mercado de ações a qualquer hora do dia, bem como a televisão durante toda a noite e negócios por 24 horas, incentivam cada vez mais a privação do sono.
O grande volume de trabalho faz com que o período da noite deixe de representar sono e descanso para uma parte significativa da população. Muitos trabalhadores se revezam entre os períodos noturno e diurno ou até vivem trocando a noite pelo dia.
Além de todas as conseqüências que este tipo de jornada traz à saúde do indivíduo, existe também a possibilidade de se provocar acidentes graves de trabalho. Podemos citar dois casos trágicos que têm suas causas relacionadas às conseqüências do trabalho noturno mal administrado: o acidente nuclear de Chernobyl e a explosão do ônibus espacial Challenger.
Na usina de Chernobyl (Ucrânia) as longas jornadas de trabalho eram freqüentes, privações de sono e sonolência excessiva também. Estes fatores se agravaram com a pressão do governo soviético para cumprir prazos. Em abril de 1986, procedimentos foram programados para a madrugada e alguns sistemas de segurança foram desligados. Quando foi constatado o superaquecimento do reator, os operadores – que vinham de uma longa jornada de trabalho e provavelmente estavam sonolentos - cometeram um erro: desligaram o resfriamento de emergência.
No caso da explosão do ônibus espacial Challenger, no mesmo ano, o acidente foi atribuído a um defeito em uma peça do tanque de combustível. Porém, é preciso lembrar que a equipe de manutenção e os diretores que autorizaram a decolagem haviam dormido muito pouco na noite anterior ao acidente.

Doenças que causam sonolência
Síndrome da apnéia obstrutiva do sono
Este problema, além dos transtornos sociais e psicológicos, pode trazer conseqüências físicas para o paciente (hipertensão, arritmias cardíacas e AVC – Acidente Vascular Cerebral).
A síndrome da apnéia obstrutiva do sono
é a obstrução das vias aéreas por alguns momentos durante a noite, pela flacidez dos tecidos da garganta, impedindo a respiração por alguns segundos, varias vezes por noite. O problema é mais freqüente no homem a partir dos 30 anos de idade e nas mulheres a partir da menopausa.
Os principais sintomas da apnéia do sono são o ronco e a sonolência diurna excessiva. O ronco é também um fator de desagregação familiar, muitas vezes levando a pessoa que ronca a dormir em quarto separado, bem como torna a pessoa que ronca motivo de piadas entre companheiros de trabalho.

Narcolepsia
A narcolepsia caracteriza-se por sonolência excessiva associada à cataplexia e outros fenômenos do sono REM, como paralisia do sono e alucinações hipnagógicas. A sonolência é muito intensa, incapacitante.
A cataplexia é uma perda súbita do tono dos músculos posturais desencadeada por uma emoção intensa como riso, raiva ou medo. A pessoa pode cair ou apenas sentir-se fraca e necessitar sentar-se. A paralisia do sono ocorre ao adormecer. A impossibilidade de movimentar-se pode ser assustadora. Alucinações hipnagógicas podem ocorrer junto com a paralisia. São sonhos, visões.
A deficiência de neurônios que produzem hipocretina no hipotálamo é o que causa narcolepsia. Aparentemente, fenômenos inflamatórios causam a destruição da fina camada desses neurônios fundamentais para a manutenção da vigília. O problema geralmente aparece na adolescência ou no inicio da idade adulta, embora varie dos primeiros anos de vida à terceira idade.

Síndrome das Pernas Inquietas
A síndrome das pernas inquietas (SPI) causa sensações desagradáveis e angustiantes nas pernas, sobretudo na região da panturrilha, e um impulso ao mover estes membros, levando a movimentos descontrolados. A pessoa geralmente tem vontade de levantar ou ficar andando, para que a sensação incômoda vá embora.
O distúrbio afeta ambos os sexos e pode começar em qualquer idade e piorar com o tempo.
Sinais e Sintomas - Sensações desagradáveis dos membros como formigamento, queimação, aflição ou dor na panturrilha, coxas, pés ou braços. Às vezes, as sensações opõem-se à descrição. As pessoas geralmente não descrevem a condição como câimbra ou formigamento de um músculo. Os sintomas costumam piorar à noite.
A maioria das pessoas com o problema encontra dificuldades para dormir ou ficar dormindo. A insônia pode levar à sonolência excessiva durante o dia, mas a SPI pode fazer com o portador não aproveite um cochilo durante o dia.
Embora a síndrome das pernas inquietas não cause outras condições sérias, os sintomas podem ir desde o incômodo até a incapacidade. Na verdade, é comum que os sintomas oscilem em gravidade e ocasionalmente desaparecem por períodos de tempo.
O estresse geralmente piora a doença. Gravidez e mudanças hormonais também podem agravar temporariamente os sinais e sintomas da SPI.
A síndrome também pode provocar angústia, insônia, sonolência excessiva durante o dia, cansaço e irritabilidade, além de déficit de concentração e memorização. O diagnóstico é feito através de exame clínico e polissonografia.
O tratamento da SPI deve ser individualizado, de acordo com os sintomas de cada paciente. O tratamento inclui medidas não-farmacológicas, que ajudam a aliviar os sintomas, e o uso de agentes farmacológicos como pramipexol, medicamentos antiparkinsonianos e benzodeazepínicos.
O paciente com SPI também deve evitar cafeína, tabaco e álcool. Medidas como exercícios físicos e massagem podem aliviar os sintomas.


Inserida dia 20/01/2008

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